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domingo, 17 de janeiro de 2010

Bom dia, flor do dia, mas deve haver modos menos agourentos de se dispertar que com uma filha choramingando à cabeceira. E pelo visto, mais uma vez você veio sem os meus cigarros, que dirá os charutos. Que é proibido fumar aqui dentro eu sei, mas dá-se um jeito, também não estou lhe pedindo pra entrar no hospital com cocaína. Vou lhe contar como um belo dia, em Paris, seu avô resolveu me levar a uma estação de inverno. Papai era um homem de multiplos interesses, mas até entao eu desconhecia essa sua faceta esportiva. Aos dessete anos, segundo ele, já estava mais do que na hora de eu conhecer a neve, por isso enfrentamos uma longa viajem de trem até Crans-Montana, nos alpes suíços. À noite, nos demos entrada no hotel, munidos de botas e luvas e gorros de lã, pares de esquis e de bastões, todo o aparato. E eu já ia dormir quando papaime chamou ao seu quarto, sentou-se numa chaise longue e abriu o estojo de ébano. Mas o que é iss, meu Pai? É a neve, ora bolas, disse ele muito sério.Com uma mini-espátula separou o pó branquíssimo em quatro linhas, depois me passou um canudo de prata.Mas não se tratava dessa porcaria que idiota cheira por aí, era coaína da pura, que só tomava quem podia. Não travava a boca, a fome tirava a fome, nem brochava, tanto é verdade que em seguida ele mandou subir as putas.[...]

Começo do 7º capítulo de Leite Derramado, do Chico Buarque.

LEIAM.

segunda-feira, 9 de março de 2009

~

"Estou aqui, mas é como se não estivesse em parte alguma de tal modo fui despersonalizado por uma série de fenômenos que tornaram irrelevante, já não digo o estar em alguma parte, mas o ser alguém em um ente definido e não outro qualquer, desde sarcomastigóforo, que o livro garante ser espécie mínima de protozoário, até o proboscídeo, hoje representado pelo simpático elefante. Ou mesmo objeto. Sou pessoa ou tamborete gente ou panela de apito, sou folha de papel, relógio, cadarço, roda de carro, que é que sou afinal? Inda se fosse só isto ou aquilo. Mas sucessivamente me transfomaram em outra coisa ou coisa nenhuma. Pintam-me de vermelho ou azul, dissolvem-me, condensam-me, baralham-me, anulam-me. Por toda parte ouço ordens, advertências, conselhos, intimações, proibições. Faço o que não quero, se faço; em geral, não me deixam fazer nada. Dizem que sou massa. Mas existe massa, ou criaturas diferentes uma das outras?"

É do Drummond, mas achei no about de alguém e postei.

segunda-feira, 2 de março de 2009

gloBANALização

-Multinacionais Japonesas instalam empresas em Hong-Kong,
produzindo com matéria prima brasileira, para poder
competir no mercado americano.
-Combustível árabe alimenta automóveis alemães, que
circulam sem parar pelas ruas de Mônaco.
-Circuitos japoneses, dão funcionamento à placas de som
da Indonésia, para que atendentes de tele-marketing
indianos, com nomes falsos americanos, atendam clientes
de empresas inglesas.
-Crianças tailandesas costuram bolas americanas para
jogadores brasileiros marcarem gols para times italianos.
-Lâmpadas japonesas, chicletes americanos e saias indianas
nos bazares coreanos de São Paulo.
-Comida kösher é servida para muçulmanos hispânicos no
leste da Austrália.
-E a literatura grega é reinterpretada para crianças
chinesas da comunidade européia.